No setor infantil de um hospital psiquiátrico, o ambiente costumava ser marcado pelo silêncio e pela incerteza. Em meio a conversas baixas, um grupo de voluntários apenas exercia a presença, alguns sentados ao lado das crianças, outros conversando e brincando. Na hora da saída, porém, uma mãe rompeu a rotina: em lágrimas, envolveu cerca de nove pessoas em um único e demorado abraço, daqueles em que os braços parecem se esticar para alcançar o mundo. Havia dias que sua filha estava internada sem dar um único sinal de alegria. “Foi o primeiro sorriso da minha filha desde que chegou no hospital”, emocionou-se a mãe.
Nesse momento, Claudio Neto, um dos fundadores da Trupe do Riso, viu a ficha cair. “Vamos investir nisso aqui. É isso, é esse o lugar que o palhaço precisa estar”.

Assim, o que começou em 2013 como um trabalho voluntário de teatro ligado a uma igreja ganhou novos contornos em 2016, quando o grupo fez sua primeira atuação em ambiente hospitalar. Estavam confiantes. Tinham propósito. Mas, Claudio conta que, ainda assim, eles eram apenas um grupo de apaixonados sem nenhuma noção de gestão. Achavam que bastava virar uma ONG que tudo seria resolvido, mas a prática mostrou bem rápido que a realidade era outra.
A virada de chave definitiva aconteceu durante a pandemia da Covid-19. Com as visitas suspensas, a equipe aproveitou a pausa para entender que precisava olhar para a Trupe com a seriedade de uma empresa, se quisesse crescer sem perder a essência.
A tecnologia e a parceria com a Soulcial
A instituição precisava de uma fonte de renda recorrente e previsível. O caminho natural era a Nota Fiscal Paulista, mas o método tradicional de espalhar centenas de urnas de papel pelos comércios da cidade, exigia uma logística pesada de recolhimento e digitação de cupons que a Trupe simplesmente não tinha como bancar.
Foi aí que a Soulcial entrou na história. Em vez de depender do papel, a plataforma digitalizou o processo e permitiu que os doadores destinassem seus cupons direto pelo celular, de um jeito prático e sem burocracia.
“O principal motivo de ter dado tão certo é a logística, sem dúvida. O meu esforço mudou: em vez de ficar rodando a cidade atrás das urnas, passei a conversar com as pessoas para elas baixarem o aplicativo da Soulcial”, explica Claudio.


A resposta veio no caixa. Além do repasse mensal fixo, que, no caso da Trupe, costuma girar entre R$ 5 mil e R$ 7 mil, as gincanas e dinâmicas promovidas dentro do aplicativo da Soulcial provocaram picos de arrecadação que chegaram a quase R$ 30 mil de uma vez só em ações específicas.
Com essa previsibilidade financeira, a ONG pôde estruturar seus bastidores com maturidade, investindo em sistemas de controle financeiro, na remunerção de prestadores de serviço estratégicos e na criação de uma reserva de caixa para a futura expansão da sede.
Atenção aos voluntários
Lidar diariamente com a dor e a vulnerabilidade nos leitos hospitalares exige preparo e suporte constante. Com a estabilidade financeira conquistada por meio das doações, a Trupe do Riso tirou do papel um de seus maiores desejos institucionais, olhar com carinho para a saúde mental e emocional da própria equipe.
Pela primeira vez, a ONG conseguiu contratar uma profissional dedicada exclusivamente a ouvir, acolher e acompanhar os voluntários. Esse trabalho funciona como um ponto de apoio emocional e orientação para quem está na linha de frente dos atendimentos, garantindo que o grupo continue levando leveza aos hospitais sem se desgastar no processo.

O impacto do palhaço
Com a casa arrumada na gestão, o trabalho nos corredores ganhou uma força sem precedentes. Claudio reforça que a gestão organizada não é o que faz a mágica no leito do paciente, mas é o que garante que o palhaço chegue lá com estrutura e qualidade.
Em julho de 2026, a Trupe ampliou a equipe, após cinco meses de uma formação completa e superespecial. Agora, são 44 artistas (38 palhaços e 6 contadores de histórias). De janeiro a julho, realizou 111 ações e atendeu mais de 8.384 pessoas entre crianças, acompanhantes e profissionais de saúde em hospitais, Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e Ambulatórios Médicos de Especialidades (AME).
Para o futuro, a meta é ainda mais ousada, usar a estabilidade vinda das doações para contratar artistas fixos. A ideia é ter palhaços trabalhando de segunda a sexta, em horário comercial, para ocupar espaços como Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) e Unidades Básicas de Saúde (UBS).



A trajetória que começou no abraço de uma mãe num corredor hospitalar prova que o afeto e a gestão profissional não andam em caminhos opostos. E para as entidades que ainda tem receio de buscar tecnologia, de contratar a Soulcial ou estruturar a captação no terceiro setor, Claudio resume a experiência sem rodeios: “Usem, vão atrás. É um recurso que vem de verdade”.
Para saber mais sobre o trabalho da Trupe do Riso, acesse: trupedoriso.org.br.
Texto: Mariana Francisco (DRC&P)
Fotos: May Rabello


